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11/02/2008    
"Exército de restauradores" do Theatro Pedro II é destaque na revista Painel  
Publicação mensal da AEAARP fez panorama do patrimônio histórico de Ribeirão Preto

   
   

A “antiga” paisagem está em ruínas

O Pateo do Collegio, incrustado no centro da cidade de São Paulo e rodeado por arranha-céus, é testemunha de 453 anos de história. Esta afirmação não é verdadeira. A construção sofreu com a disputa entre jesuítas e bandeirantes, foi parcialmente destruída, depois reerguido pelos padres, sofreu alterações importantes e, finalmente, o que está hoje de pé é, na verdade, uma réplica da construção original. Uma única parede, datada de 1653, resiste na área externa, onde fica o elegante Café do Pateo. A parede, em taipa de pilão (veja quadro), fica protegida e isolada do visitante, que lê em uma placa as explicações sobre sua construção.
A reconstrução do Pateo e devolução aos jesuítas aconteceu em plena ditadura militar e é tida hoje como exemplo de preservação do patrimônio cultural. É este um dos exemplos que inspiram o engenheiro civil Gilberto Pinhata na presidência do Conppac-Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural de Ribeirão Preto, posto que assumiu nos últimos dias do ano de 2007.
Na contramão da expansão imobiliária e do surgimento de uma nova paisagem urbana estão os 35 processos de tombamento e algumas expectativas nada animadoras a respeito de construções históricas. Questionado se os prédios antigos passíveis de tombamento são velhos ou históricos, Pinhata sorriu e preferiu passar à questão seguinte, ressaltando a importância de preservar a história da cidade.
O caso mais notório é o Casarão da Caramuru. Este será fatalmente demolido em razão da falta de investimentos. “É triste porque não tem vitória de lado nenhum: a história perde, a Prefeitura perde e os proprietários também”, atesta o engenheiro. Pinhata sugere que a iniciativa privada poderia usar o terreno, preservando partes da obra, como paredes que têm afrescos, usando a preservação do Pateo do Collegio como exemplo.
A idéia, entretanto, esbarra em entraves de ordem jurídica e econômica, apesar de ter sido usada em Ribeirão quando o Palácio do Rio Branco foi restaurado. Na área do protocolo, o piso foi refeito, mas um trecho do antigo revestimento foi mantido, sob a proteção de um vidro, para que o visitante possa ver como foi a construção original.
Investimentos
Na semana em que Pinhata concedeu entrevista para a Painel, a USP-Universidade de São Paulo anunciou que tem a intenção de ocupar o Hotel Brasil, que fica na avenida Jeronimo Gonçalves, como uma extensão do curso de música. A iniciativa depende ainda de captação de recursos para viabilizar o restauro do prédio, que data dos anos de 1930. A notícia animou o atual presidente do Conpacc, que pretende tirar daquela região qualquer visão pejorativa e batizá-la, definitivamente, como o centro histórico de Ribeirão.
Para avançar, entretanto, é necessário investir. Este é o coro que Pinhata compõe com lideranças como Rosa Maria Britto Cosenza de Oliveira, presidente do Conselho Municipal de Cultura e membro do Conppac. Em sua visão, faltam incentivos públicos, como o desconto em impostos, e iniciativas criativas, como convidar estudantes de faculdades de Engenharia e Arquitetura para que façam projetos de recuperação do patrimônio cultural que está tombado, porém esquecido.
Rosa Maria inspira seu discurso em favor da preservação em experiências como as da Bélgica, onde as fachadas de prédios históricos são preservadas e seu interior é reformado de acordo com a necessidade daqueles que irão ocupá-los. Ela lembra que a falta da consciência de preservação do patrimônio impediu que as novas gerações tivessem contato com ícones da história ribeirão-pretana, como o Palacete Innecchi. Sua demolição é “o maior crime” contra o patrimônio de Ribeirão, em sua avaliação.
Ela lembra que a casa foi erguida para fazer frente ao Clube da Recreativa, que ocupava o prédio onde atualmente está instalado o MARP-Museu de Arte de Ribeirão Preto. O terreno onde ficava a casa é ocupado hoje por uma agência bancária. Responsável pela demolição do palacete, o mesmo banco deu para a Prefeitura Municipal outro patrimônio, a fábrica desativada da Cianê, localizada na avenida Costa e Silva. O projeto de recuperação e ocupação do lugar ainda não saiu do papel, apesar da doação ter ocorrido há dois anos.
A engenheira civil Maria Inês Cavalcanti, que representa a AEAARP no Conppac, acredita que a iniciativa privada poderia “adotar” alguns dos patrimônios já tombados e ocupá-los, com lojas e agências bancárias, por exemplo. “Seria como um presente para a cidade”, afirma.
Pinhata diz que falta envolvimento público e privado em projetos de preservação do patrimônio cultural. “Uma cidade com o orçamento de Ribeirão pode investir mais nisso”, afirma, ressaltando que entende as prioridades que os investimentos nas áreas sociais devam ter. À frente do Conppac, ele pretende seduzir a iniciativa privada e interceder junto ao poder público para que outros crimes contra o patrimônio não sejam escritos na história da cidade e que outros prédios, como o da Caramuru, possam resistir aos anos de disputa.
 
 
A parede de taipa de pilão
Este é um dos poucos testemunhos da arquitetura colonial do século XVI realizada no Brasil, sendo o mais importante resquício da época da fundação da cidade de São Paulo. Foi construída pelo Pe. Afonso Brás – “o primeiro arquiteto brasileiro” – em 1585, quando se realizaram reformas na residência dos padres, Igreja e Colégio, erguidos em 1556, sob administração dos jesuítas, que constituíram as primeiras obras oficiais do então vilarejo de São Paulo de Piratininga, fundada em 1554.
A parede apresenta ainda um valor artístico inigualável pela forma como foi edificada. A taipa de pilão era uma técnica vinda da península ibérica, muito comum no cotidiano colonial brasileiro e principalmente paulista, devido à escassez de outros materiais (pedra e cal) e por ser de igual resistência à de alvenaria de pedra, além de menos trabalhosa.
De uma maneira geral seu processo de construção consistia na mistura de terra umedecida, areia, estrume, fibras vegetais e sangue de boi. Essa mistura era colocada entre duas pranchas verticais, onde ficava até secar. Houve outras reformas do prédio original, mas mesmo comt a transformação da casa dos jesuítas em Palácio da Presidência da Província, ocasião em que a fachada foi totalmente descaracterizada, a parede sobreviveu. Ali permanece ainda hoje, preservada por contínuos cuidados e esforços, como homenagem ao passado e respeito àqueles que nos antecederam.
 
Visão elitista
Adriana Capretz Borges da Silva Manhas, autora do artigo “Cem anos do desenvolvimento urbano de Ribeirão Preto”, observa em seu trabalho que há um descaso com o patrimônio arquitetônico na cidade e “os poucos esforços para a restauração não consideram todo o sítio, preservando os edifícios isoladamente, que permanecem desconectados do contexto geral. Além disso, são escolhidos para preservação apenas exemplares representativos da elite, enquanto casas centenárias em bairros tradicionais são desconsideradas, como se não fizessem parte da história”.
 
A quantas anda o patrimônio de Ribeirão Preto?
De acordo com levantamento do engenheiro Gilberto Pinhata, a preservação do patrimônio cultural está no caminho certo. O Hotel Brasil tem boas perspectivas de solução com a intervenção da USP. A avenida Jerônimo Gonçalves, a Praça das Bandeiras, o Palácio Rio Branco e a antiga fábrica da Cianê contam com estudos de restauro e a Cervejaria Antarctica Niger está em fase de restauro. Um dos ícones do período cafeeiro, o Quarteirão Paulista, que inclui o Theatro Pedro II, o Pinguim e o Hotel Palace, já está restaurado.
 
Um exército de restauradores
O trabalho de restauro do Pedro II contou com um exército de dezenas de restauradores, muitos formados durante os quatro anos que durou a obra. As 75 anos, o marceneiro Luiz Scarpini Netto é um dos exemplos. “O mais trabalhoso foi recuperar a boca de cena, o ponto principal do teatro. Todo o madeiramento do teatro estava destruído e não tínhamos referência do original”, lembra.  “Usamos fotografias para fazer nosso trabalho”, conta Scarpini, que chegava às 7h da manhã e passava o dia no Pedro II. Segundo a Jábali Aude Construções, que executou as obras, 580 funcionários nas áreas de administração e restauro, foram envolvidos no trabalho.
 
 
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Luiz Scarpini Netto integra a equipe que faz a manutenção do Theatro Pedro II e participou da obra de restauro
     
     
     
 
   
     
     
Jábali Aude Construções